• Marina Ferrari

A força da alimentação nos primeiros 2 anos

Updated: May 17, 2019

Você já ouviu falar nos primeiros mil dias de vida?


É o tempo entre a concepção (o que dá início à gestação) até a criança atingir 2 anos de idade que foi chamado de JANELA DE OPORTUNIDADES CEREBRAIS. É um período único no qual são estabelecidas as bases ideias de saúde, crescimento e neurodesenvolvimento ao longo da vida.


Enquanto o cérebro humano segue se desenvolvendo ao longo da vida, o período de crescimento cerebral mais rápido e seu período de maior plasticidade é no último trimestre da gravidez e nos dois primeiros anos de vida. Esse é, então, o período em que o crescimento cerebral é mais suscetível a deficiências nutricionais (muitas vezes não relacionadas a baixo peso).


Ou seja, prevenir carências com intervenções nutricionais durante o período fetal e os primeiros anos de vida tem um profundo impacto a longo prazo.


Se o desenvolvimento cerebral nessa faixa é tão veloz, esperar que as preferências alimentares na infância sejam corrigidas "com o tempo" pode na verdade tornar o problema ainda maior. Nenhuma criança vai ter possibilidade de mudar seu hábito alimentar enquanto seu ambiente continuar o mesmo, e quanto mais tarde, mais difícil.


A maioria dos pais sabe que crianças precisam ingerir vegetais e frutas ao longo do dia a partir dos seis meses, além de alimentos que proporcionem energia e proteína para o crescimento. Também sabem que a ingestão de alimentos açucarados tão cedo na vida não é adequada, pois gera imbalanço na ingestão de nutrientes . Entretanto, muitos não sabem como ajudar a criança a criar e fortificar um hábito mais saudável.


Primeiro é preciso entender que todos nascemos com preferência pelo doce e pelo salgado. Isso faz parte da nossa biologia, uma biologia que foi formada antes dos alimentos industrializados existirem. E essa indústria alimentícia propositalmente se aproveita dessas preferências biológicas, colocando no mercado alimentos que nosso cérebro tem dificuldade de dizer “não”.


Crianças se alimentam basicamente por instinto, intuição e disponibilidade. Ou seja, a parte biológica é a que conta. A criança pequena não vai ter um raciocínio sobre o que é bom pra saúde dela. Se alimentos ultraprocessados estiverem disponíveis nessa fase da vida, elas vão aceitar. Muitas vezes nem mesmo precisando estar com fome. Pois o cérebro humano entende esses alimentos como fonte de prazer – e essa é a estratégia da indústria alimentícia.


É importante que os pais sejam orientados de que esses alimentos não são apropriados para essa fase de tanta sensibilidade cerebral, e que por conterem bastante energia "fácil", vão reduzir ainda mais a ingestão da criança dos alimentos mais naturais. Nessa fase, é um prazer que custa muito caro para a saúde.


Primeiro, relaxem dessa angústia que "a criança não come"! Crianças* não ficam sem comer. Se elas não aceitaram alguma refeição oferecida pelos pais (despois que a introdução alimentar já está bem estabelecida), é provavelmente porque não estão com fome naquele horário. E se não estão com fome, é porque não precisam comer (ainda). Ofereça os mesmos alimentos (adequados) mais tarde. Criança que tem fome vai comer o que tiver disponível!

*que não tenham nenhum tipo de distúrbio ou patologia


Se por angústia, no desespero da criança não comer, oferecemos alimentos e bebidas que não vão ser negados, como papas adoçadas, sucos, salgadinhos, biscoitos, cereais saborizados, Danoninho ou similares, entramos em um ciclo em que a criança, na próxima refeição, novamente não estará com fome suficiente, gerando a mesma resposta dos pais. Além disso, vai intensificando a preferência da criança pelos alimentos adoçados e ultraprocessados. Esses fatores juntos criam uma bola de neve.


E isso o tempo não resolve!


O que resolve é: educação dos pais quanto à biologia das crianças, mudança de ambiente alimentar, e regulação de expectativas dos pais quanto à alimentação infantil e suas mudanças. E quanto antes isso acontecer, mais rápida é a resposta da criança, pelo mesmo motivo que já falamos no início do texto: alta velocidade de desenvolvimento cerebral.


Valorizem essa fase. E dêem a devida importância!



Referências:

- https://www.unicef-irc.org/article/958-the-first-1000-days-of-life-the-brains-window-of-opportunity.html

- Alvarenga M. et al - Nutrição Comportamental (2015)


© 2018 by Marina Ferrari

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