• Marina Ferrari

Um docinho por um brócolis

Eu sei que é muito difícil não cair na tentação de fazer barganha com as crianças para conseguir que elas comam o que a gente sabe que é essencial para a saúde delas.


Até porque a gente sabe que algumas vezes funciona. O problema é, até quando?


Quando entramos nessa, estamos na verdade dando um tiro no pé quando pensamos a longo prazo.


O que acontece na prática com o "come essa couve e você ganha o sorvete" OU o "se não comer a cenoura, não ganha sobremesa" é que estamos reforçando cada vez mais que doces são prêmios e que vegetais são a parte ruim.


Cada vez mais a criança enxerga os vegetais como algo negativo, e doces como algo positivo.


Assim, sempre que ela estiver com autonomia para decidir, ela vai dar preferência para o doce. E quando ela não tiver autonomia, vai ficar muito incomodada.

Ou seja, a gente não ensinou a criança a comer, a gente ensinou ela a barganhar. (Não vai ser legal quando ela usar isso contra você!)


Além da questão da barganha, a criança se afasta de seus sinais de fome e saciedade, que intuitivamente as faria


O que fazer, então?


É importante que a criança seja exposta com frequência aos alimentos que sabemos ser importantes para elas. Ao mesmo tempo, reduzir a exposição de alimentos que a criança não precisa.


Um estudo fez o seguinte teste com crianças em idade pré-escolar em que ofereceram tanto cenouras quanto biscoitos. Simplificando, foi assim que os dividiram:

- No grupo 1: diziam-lhes que os alimentos os deixariam fortes e saudáveis

- No grupo 2: diziam-lhes que os alimentos iriam ajudá-los a ler e fazer contas

- No grupo 3: diziam-lhes que os alimentos eram gostosos

- No grupo 4: não diziam nada às crianças, apenas deixavam os alimentos ao alcance


Conseguem adivinhar em quais grupos as crianças mais comeram os alimentos?

O grupo vencedor foi o grupo 4, e o vice foi o 3!


Isso quer dizer que, por melhor que sejam as nossas intenções, tentar convencer a criança a comer é furada!


Como já disse Jo Cormack, especialista em alimentação seletiva:

"Paradoxalmente, quanto mais tentamos controlar as decisões alimentares das crianças, mais elas sentem a necessidade de controlá-las."


A responsabilidade de pais e cuidadores é deixar ao alcance das crianças os alimentos adequados. QUANTO e QUANDO comer de acada um deles, é decisão da criança.


Se ela não estiver com fome no horário da refeição, ofereça o mesmo alimento mais tarde.


A criança (sem patologias) vai comer bem e ter boa saúde se diariamente são oferecidos alimentos de qualidade e variados para ela.


Uma das alternativas se a criança está pedindo doce na hora da refeição:

"Você está com fome? Isso quer dizer que seu corpo está pedindo uma refeição. Se depois do almoço você ainda tiver vontade de comer a sobremesa, você poderá comer. E se não estiver com fome agora, pode comer mais tarde."


Assim como com refrigerante:

"Você está com sede? Isso quer dizer que seu corpo precisa de água. Se depois de tomar água você ainda quiser o refrigerante, você poderá tomar o refrigerante."


Lembrando que:

- esses alimentos só serão solicitados pela criança se ela souber que eles estão disponíveis;

- crianças aprendem pelo exemplo;

- crianças até dois anos não devem receber nenhum alimento contendo açúcar (mais infor-mações sobre isso nesse post).


A proibição e a barganha não ajudam a criança a aprender a fazer boas escolhas. O que as ajudam é o hábito e a familiaridade com os alimentos, que só alcançamos com repetição de exposição.


Então tirem a pressão que vocês sentem que cada refeição da criança precisa ser perfeita nutricionalmente, e pensem que a ideia é educá-las para quando forem grandes o suficiente e tiverem que fazer suas próprias escolhas.


Um prato colorido e com todos grupos alimentares é que precisa ficar gravado na memória das crianças como uma alimentação positiva.

Referências:

Maimaran & Fishbach - If It’s Useful and You Know It, Do You Eat? Preschoolers Refrain from Instrumental Food (2014)

© 2018 by Marina Ferrari

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